Show do The Who em Porto Alegre

Opa! Tudo bom? Com um pouco de atraso (falha minha, peço perdão), o Lucas vai contar um pouco sobre como foi a incrível vinda do The Who para Porto Alegre, no anfiteatro Beira-Rio!
Foto da Agência RBS
Com pontualidade inglesa, o The Who entra no palco do Beira-Rio, em Porto Alegre, às 21h30 da terça-feira dia 26 de setembro, para iniciar a sua histórica apresentação para uma plateia que não chegou a lotar as dependências do Estádio do Internacional. Era possível ver uma boa quantidade de cadeiras vermelhas vazias. Em tempos de crise, muitos não tiveram condições de comprar os ingressos, que custavam entre R$105 (cadeira superior, com meia entrada) e R$580 (pista Premium). Quem foi, certamente, não se arrependeu. Roger Daltrey e Pete Townshend, os dois únicos fundadores do The Who ainda vivos, começam o desfile de hits com I Can’t Explain, um dos seus primeiros singles, lançado na Inglaterra no começo de 1965.

Olhos incrédulos observam os setentões darem uma aula de Rock’n Roll. 

A fúria do The Who estava ali, diante daqueles que esperaram uma vida pela primeira vinda do grupo ao Brasil. Depois de tantas promessas de turnês na América Latina, o sonho tornou-se realidade. Vozes emocionadas acompanham o The Who em The Seeker e Who Are You, as duas próximas do bem escolhido set list. É impossível ficar parado diante de The Kids Are Allright, sucesso do álbum de estreia, My Generation, de 1965, cuja faixa título provoca choro e gritos dos fãs. A curiosidade é que essa canção traz a frase “I hope I die before I get old” (espero que eu morra antes de envelhecer, em tradução livre). Pete Townshend, 72 anos, que compôs essa letra aos 20, garante que segue sentindo-se jovem e que é isso o que importa. Que bom! 

Esbanjando saúde e empolgação, executam I Can See for Miles, única representante do clássico Who Sell Out, de 1967, que talvez seja o único disco “injustiçado”. Canções como Marie Anne With The Shaky Hand e Armenia City in The Sky cairiam muito bem. Mas também ninguém reclamou, e de fato é muito difícil para um grupo com mais de cinco décadas de carreira escolher pouco mais de 20 músicas para tocar ao vivo. Bargain dá uma nova cara ao espetáculo, entrando na fase em que o grupo começou a fazer músicas mais pesadas. A balada Behind Blue Eyes é a mais cantada pelos fãs nesta primeira parte do show. Essas duas foram extraídas de Who’s Next, de 1971. 


Foto: G1
É incrível observar a garra e o talento dos músicos no palco. Pete segue fazendo seus backing vocals no mesmo tom de décadas atrás, exatamente da mesma forma com que os adoradores do Who assistiram por meio século: da TV em preto e branco, ao VHS; dos DVDs às plataformas digitais. “You better you better you bet. Oh Oh Oh”. Quantos anos todos esperaram para ver ao vivo dois dos maiores roqueiros de todos os tempos cantando essas linhas? Valeu a pena! Cada segundo. Cada centavo. O estilho velhinho simpático somado ao de roqueiro rebelde da dupla encanta a todos. Daltrey e Townshend se divertem divertindo. Para dar um breve descanso à voz de Daltrey, eles emendam duas músicas de Quadrophenia, álbum de 1973. A primeira é The One, o momento solo de Pete, que toca violão e canta sua balada diante de olhares atentos. The Rock é um belo tema instrumental, com execução vibrante. 

O vocalista retorna para Love Reign O’er Me, umas das maiores músicas de amor de todos os tempos. Quem acostumou-se a ver vídeos do Who ao longo do tempo se lembra das marcas registradas de Pete e Daltrey: o primeiro dando voltas com o braço antes de tocar as notas na sua guitarra. O segundo jogando o microfone para cima e se enrolando no fio. Tudo se passa ali, no nosso país. Na nossa casa. Exatamente como acontece há 50 com anos. É uma experiência de vida irrepetível, um contato real com a história da cultura do século XX. À essas alturas, a certeza de que o ingresso já estava pago toma conta de todos. Não há falhas na apresentação. É só emoção. Mas ainda viria mais. 


Foto Hits Entretenimento (Divulgação)
A Ópera Rock Tommy, de 1969, que merecia um show exclusivo, é lembrada com quatro canções. O disco conta a história de um garoto que fica surdo, cego e mudo por causa de um trauma e depois torna-se um messias. “How do You think He does it?” (como você acha que ele faz isso?), pergunta Pete. “I don’t know” (não sei), responde Daltrey. Comoção total. As falas do hino Pinball Wizard são entoadas por todos. Choros, risos e coros são ouvidos na plateia. Banda e público tornam-se um só na homenagem a uma obra atemporal. Amazing Journey, Sparks e See Me Feel Me/ Listening to You encerram uma parte que sozinha já valeria a noite. Voltando para o disco Who’s Next, Baba O’Riley, uma das mais famosas, poderia ser o encerramento ideal. Mas ainda faltava algo, a mais furiosa de todas, Won’t Get Fooled Again. Pete Townshend deslizando de joelhos no chão enquanto executa o solo dessa música certamente está entre os momentos mais emblemáticos da história do Rock’n Roll. O garoto que não morreu antes de envelhecer.

A celebração é finalizada com a conhecida crítica aos governantes, de Won’t Get Fooled Again. “Meet The New Boss. The same as The Old Boss” (encontre o novo chefe, é igualzinho ao antigo chefe), esbraveja um já cansado porém satisfeito Roger Daltrey. Bem que poderia ser um até logo, mas provavelmente seja um adeus. Os integrantes do The Who dão a entender que vão se aposentar após o fim da atual turnê. Como em quase todo grande show, ainda há um bis. A pesada 5:15 e a sessentista Substitute aparecem para brindar os fãs que estão ali desde o começo da tarde esperando pelos seus ídolos.

Roger Daltrey e Pete Townshend não devem em nada a colegas contemporâneos seus, como Paul McCartney, Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts, que também já deram aula de disposição e Rock’n Roll em solo brasileiro. O desempenho da dupla no Beira-Rio mostra que a clássica pergunta “Beatles ou Stones?” pode ter uma resposta bem inusitada: The Who!

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